Por que as escolas de artes não falam sobre empreendedorismo para os artistas?

Mas percebi bem rápido que “produzir” seria um trabalho muuuito mais árduo do que eu imaginava. Não bastava eu ter uma boa ideia. Eu precisava entender dos paranauês de como conseguir grana, de como “persuadir” o patrocínio, de como gerenciar projetos…

Só depois de entrar no Miss Saigon é que eu fui ter uma experiência acadêmica. Entrei no curso de Artes Cênicas, e lá tive algumas noções de produção cultural. No escopo das aulas, de forma bastante genérica, conheci as famigeradas leis de incentivo à cultura e os editais, que pra mim mais pareciam escritos de mandarim. Me deparei com tanta burocracia, que produzir meus próprios projetos começou a não ser tão atrativo assim. Mas ainda estava com aquela pulguinha atrás da orelha e com muita vontade de, no futuro, ter liberdade e autonomia para não depender somente das audições.

“Será que não tem outro jeito?” – pensava. “Será que só dá pra produzir por essas vias?”. Nesse momento eu já estava colocando em xeque todo o sistema de produção cultural. Por estar muito imerso no ambiente de teatro musical, eu comecei a reparar que claramente as leis de incentivo só estavam beneficiando uma pequena parcela de projetos, e sempre dando preferência aos projetos de grande porte, com muita visibilidade e gente famosa. 

As plataformas de financiamento coletivo já estavam pipocando e se tornando uma alternativa cada vez mais usual entre aqueles que gostariam de tirar seus projetos independentes do papel. Mas essas plataformas ainda não conseguiam (e não conseguem até agora) suprir essa “demanda reprimida” de artistas que querem fazer diferente com total liberdade de expressão e autonomia.

Então, em 2014, eu fui atrás de descobrir o que realmente significava empreender. E descobri que tudo o que eu imaginava ser o empreendedorismo dentro da realidade das artes, não tinha absolutamente nada a ver com empreendedorismo em si. Aliás, o formato de produção cultural no Brasil caminha no exato contra fluxo.

Comecei a juntar os pontos. Percebi que o buraco era mais embaixo. Em uma profissão 100% autônoma, como que as escolas de artes não falam abertamente sobre empreendedorismo, gestão financeira, marketing e tudo o que envolve o “trabalhar (e vender) com a própria imagem”?

Existem muita escolas excelentes de artes que formam artistas incríveis. Mas cada vez mais me deparo com esses mesmos artistas incríveis desistindo da área ou passando por muitos perrengues.

No final de um curso de artes performáticas, o que subentende-se é que o artista precisa continuar se aprimorando para ser sempre bom o suficiente para passar nas audições e conseguir uma vaga em um projeto grande ou juntar uma galera, montar uma companhia e ficar tentando arduamente conseguir uma verba de edital público ou fazer muito teste para publicidade (que acaba sendo uma forma de ganhar uma graninha de cachê teste) ou fazer muito nerworking para ser conhecido entre os produtores e diretores.

Te pergunto: O quão sustentável é isso?!

Eu realmente acredito que é possível sim viver de arte. Mas eu sei que nem todos conseguem. E muitas vezes, o que acaba parecendo é que a culpa está no talento, e nem sempre essa é a causa. 

Quando está claro que a causa do perrengue não é a ausência de talento, a tela azul de erro do Windows aparece na cabeça desses artistas, que não sabem discernir o que está acontecendo. Só que agora você já sabe: o problema é que o artista não sabe ganhar dinheiro. Mas não fique mal por isso se esse for seu caso, porque NINGUÉM te ensinou.

É aí que entra a visão empreendedora!

É real. Existe aqui uma certa resistência sobre o assunto no meio da classe. Uma boa parte dos artistas não falam (e não querem falar) sobre “fazer negócio”. É como se adquirir uma visão estratégica sobre o ofício o tornasse “menor” ou “menos artístico”.

Então eliminemos o mal pela raíz: Empreender é realizar algo de forma que você possa viver ($$$) daquilo. E melhor que seja realizando algo que você ama, não é? 

E aí é entra o meu questionamento: Por que raios NENHUMA escola de artes está falando de empreendedorismo para os seus alunos?! O máximo que se tem é um direcionamento de carreira, que na minha opinião já não é mais suficiente. Não dá mais para ficar dependendo das regras do mercado, porque o mercado “convencional” das artes (do teatro, da TV, da publicidade, das companhias grandes…) não é para todos.

Desculpe, não quero MESMO te desencorajar. Mas essa é a real. Você irá competir com gente que já está a mais tempo que você no mercado, os produtores e diretores geralmente vão preferir trabalhar com determinadas pessoas que eles já conhecem e nem sempre você terá o perfil ideal… E tudo isso NÃO TEM A VER COM VOCÊ.

É possível passar mesmo nessas condições?! ÓBVIO! Por isso que você precisa continuar persistindo e fazendo muitas e muitas e muitas audições, se inscrevendo em tudo quanto é edital, inscrevendo seus projetos nas leis… Mas não fique triste e não desista se você ganhar muitos ‘nãos’ antes do tão aguardado ‘sim’. Só entenda que todos esses processos vigentes são muito mais complexos do que você possa imaginar.

E enquanto o ‘sim’ não chega, você vai ficar de mão atadas?! Vai realmente depositar TODAS as suas fichas aonde tá todo mundo competindo pelo mesmo lugar ao sol?!

E é aí que entra vocês, queridas escolas de artes. Vocês estão colocando um tantão de artista incrível no mundo e não estão dando suporte para que eles realmente vivam daquilo que escolheram viver! 

Não basta, nos dias de hoje, ser um bom artista. Se você quer realmente viver de arte, principalmente no Brasil, você precisa adquirir um pensamento de negócio, como qualquer outra profissão autônoma.

5 disciplinas que as escolas de artes poderiam (na verdade deveriam) oferecer para os seus alunos:

01.ECONOMIA CRIATIVA: As artes fazem parte de um dos setores mais promissores atualmente. E muitas das áreas envolvidas na economia criativa LITERALMENTE hackeiam os princípios das artes para desenvolver os seus projetos. Os processos criativos dos artistas são constantemente comparados com os processos de inovação.

Os artistas, se bem instruídos, poderiam prestar serviços muito preciosos para processos de ideação e prototipação de projetos, dinâmicas de grupos, processos de desenvolvimento pessoal… Além das infinitas possibilidade de criar novas inserções e instalações em ambientes que precisam urgentemente de mais humanidade.

A ideia aqui seria mostrar para o artista o quão subutilizadas estão as suas habilidades. Ele pode fazer muito mais do que estar no palco ou dar aulas.

02. MARKETING DE AUTENTICIDADE OU DIFERENCIAÇÃO: A real é que vender arte é difícil pra caramba. Principalmente quando o conteúdo da arte é o próprio artista. Só que a parada aqui não é tanto aquilo que se vende, mas como se vende. E é por isso que o artista precisa deixar de ser tão cri cri com o marketing. É preciso aprender a se posicionar e vender seu peixe, sem vergonha. O artista que aprende fazer um bom marketing nunca mais tem problema de falta de público. Porque vai entender como formar um público consistente em torno dos seus projetos. 

03. PERSONAL BRANDING: Puxando o gancho do item acima, o artista precisa entender que ele é uma marca. E desenvolver sua própria marca pessoal é deixar claro o seu posicionamento perante as pessoas que possam consumir os seus projetos. As redes sociais querem cada vez mais consumir pessoas que as inspirem. Se você deixa claro pra sua audiência as causas que você luta, logo mais você estará liderando uma tribo, uma comunidade de fãs. E são essas pessoas que irão pagar pelas coisas que você oferecer. Só que claro: isso só vai funcionar se você colocar a sua autenticidade e integridade à frente de qualquer coisa.

04. GESTÃO DE PROJETOS: É muito raro um artista saber pra onde ele quer realmente ir. Falta clareza e objetividade. Falta um tiquinho de pé no chão. É muito comum o artista “viajar na maionese” desenvolvendo o projeto perfeito e não conseguir concretizá-lo. Porque geralmente quando a megalomania do artista vai pra planilha, percebe-se que a idéia é insustentável. 

E mesmo quando o projeto é modesto, a conta não fecha, pois os 4 itens acima não estão sendo bem utilizados. É por isso que muito projeto que consegue com muito esforço um edital ou lei de incentivo não consegue caminhar depois com as próprias pernas. Porque muitas vezes todo o dinheiro captado vai para suprir as necessidades da curtíssima temporada e ninguém sabe como continuar de forma autônoma.

Agora, se os artistas (e produtores) vissem esses aportes de dinheiro como um “investimento inicial” e desenvolvesse um plano realmente eficaz, claramente teríamos temporadas maiores que 3 meses. Porque a lógica não estaria somente em “levantar o projeto” e sim, em “formar público”.

05. GESTÃO FINANCEIRA: Que na verdade é o mal de qualquer brasileiro. Nossa educação é extremamente falha nessa questão. Não temos a cultura do poupar. Não sabemos investir nosso dinheiro. Só que pro artista que vive de projetos sazonais (temporadas de 3 meses) podem em algum momento não ter dinheiro no mês seguinte caso não pegue um trabalho. Se o artista aprende a fazer uma boa gestão financeira, ele aproveita uma temporada para investir, poupar… E logo mais poderá fazer desses investimentos um autopatrocínio para os seus próprios projetos!

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Bem, percebe-se que este assunto dá pano pra manga né?! E essa é só uma fatia das bandeiras que eu tenho levantado já a um tempo. E agora, com a Casa Motivo, estamos apostando cada vez mais nessas ideias. Nós realmente acreditamos que é possível fazer o mercado cultural ser cada vez mais autônomo e plural. Mas é preciso pensar na base de tudo, no alicerce que sustenta o próprio mercado.

Não é possível fazer isso sozinho. Por isso, compartilhe esse post para os seus colegas, para os coordenadores da sua escola, para a sua companhia… Vamos juntos construir o mercado que a gente tanto quer ter?! Está cada vez mais nas nossas mãos.

O que você achou desse post?! Deixe sua mensagem aí nos comentários! Vou ter o maior prazer de trocar ideias contigo!!!